Os Mouros das Terras Encantadas

 
 
 
 

 

 

 

AS SETE BRUXAS

 

 

 

Abo (Terras Encantadas), Outono de 1163 

 

O cavalo de Balen al-Farah avançava com dificuldade entre as árvores e os arbustos densos da floresta. A capa castanha que o envolvia protegia-o da chuva persistente que caía desde o final da manhã e confundia-se com os tons das folhas douradas que pendiam nas árvores. O mouro ouvia as grossas gotas de água que se soltavam dos ramos em seu redor e tombavam no chão, o som abafado dos cascos da montada ao pisarem o manto de ervas verdes e folhas mortas, e ouvia também alguns ruídos breves e furtivos que não conseguia identificar. Esses sons, que começara a ouvir havia algum tempo, pareciam segui-lo e eram acompanhados por algumas sombras que por curtos instantes se revelavam, deslocando-se entre a vegetação da floresta. De resto imperava o silêncio. Um silêncio triste e quase opressivo que acentuava o sentimento de solidão que aquela paisagem transmitia.

            Al-Farah mantinha-se atento, receando cair numa emboscada. Os sons que ouvia podiam ser causados por animais, na pior das hipóteses por um javali ou um urso, mas também podia estar perante outro tipo de ameaça. Corriam rumores segundo os quais Abu Sakan se tinha colocado ao serviço dos Encobertos e estaria a apoiar Cassima a reunir sob a sua chefia todos os mouros-serpente. Até então, Sakan tinha-se limitado a juntar-se a bandos de salteadores, em conluios pouco prolongados, visto ninguém tolerar por muito tempo o seu carácter mesquinho e traiçoeiro, mas se fosse verdade que o mago se colocara às ordens dos Senhores do Mal, então tinha-se tornado realmente perigoso.

            O risco revelara-se uma companhia constante desde o início da viagem. Pouco depois de partir de Sharish, terra de onde era alcaide, al-Farah vira-se forçado a encaminhar-se para ocidente, para evitar o encontro com um grupo de Homens das Pedras Grandes, desviando-se do percurso que o levaria ao palácio de Zaida, no nordeste das Terras Encantadas. Mais tarde, ao deparar-se com um bando de asinomens viu-se obrigado a desviar-se ainda mais para ocidente, acabando por percorrer um trajecto que passava pelas vertentes ocidentais da Jabal Shârra, onde se encontrava agora. Aproveitou a protecção proporcionada pelas florestas que cobriam aquelas terras e decidiu retornar ao caminho certo apenas quando estivesse a norte da cordilheira. Mas os ruídos que o perseguiam demonstravam que a segurança que procurara se revelara enganadora.

Naquela época quase todos os mouros se mostravam mais preocupados em libertarem-se dos encantamentos que os prendiam e em regressar às Terras Esquecidas do que em estabelecer alianças e relações de amizade. Por onde quer que passasse seria pouco provável encontrar acolhimento antes de chegar ao Reinos dos Sete Emires, numa região muito a norte da Jabal Shârra, onde sete soberanos haviam unido os seus territórios e criado uma aliança, fundando um país próspero e seguro. Essa aliança, bem como a que Zahara estabelecera entre os mouros das águas, era uma rara excepção ao individualismo dos povos das Terras Encantadas.

Al-Farah removeu o capuz que o protegia da chuva para escutar melhor os sons que o cercavam, sentindo a chuva fina molhar-lhe o rosto. Depois desse gesto os sons pareceram cessar, como se quem os causava tivesse tomado consciência da sua atenção redobrada.

Permitiu que o cavalo descesse o terreno íngreme até uma vasta clareira que se abria em torno do curso sinuoso de um rio. Sobre um monte que se erguia abruptamente na margem oposta, observou um pequeno castelo e um aglomerado de casas que se estendiam pela encosta em redor da fortaleza. Não lhe agradava a ideia de abandonar a protecção da floresta, mas o cavalo precisava de beber água e, na verdade, tudo sugeria que a vegetação não o mantinha a salvo de todos os perigos.

Fez o cavalo avançar e, já no vale plano, ao mesmo tempo que uma rajada de vento gelado o sacudia, viu um cavaleiro parado junto ao rio, virado para o castelo que se erguia em frente. O receio de uma armadilha acentuou-se, mas pensou que não era o momento indicado para hesitar e continuou em frente.

O castelo, cujo perfil se delineava contra o céu cinzento, e o povoado que o envolvia mostravam-se estranhamente desertos. Não se viam sentinelas nas muralhas nem pessoas nas estreitas ruelas. O cavaleiro desconhecido permanecia imóvel. Usava um turbante azul-escuro e uma capa preta que o cobria totalmente e lhe dava um ar sombrio.

Os cascos do cavalo de al-Farah ressoavam no cascalho depositado pela água do rio na praia que se estendia ao longo da margem direita, mas o desconhecido parecia, ou fingia, não o ouvir, mantendo-se imóvel, envolvido pela sua capa preta, assemelhando-se a uma assombração. Em volta ouvia-se o sussurro das folhas das árvores sacudidas pelo vento e o murmúrio da água a correr no rio. Para além disso o silêncio era total, tendo desaparecido até os ruídos que o haviam seguido pelo interior da floresta.

No alto do monte que se erguia no outro lado do rio, o pequeno castelo exibia as suas muralhas feitas de pedras escuras e encharcadas pela chuva. A torre de menagem escondia-se na névoa que deslizava sobre os pontos mais altos. Nem no castelo nem no povoado se via alguém. A única presença visível era a do cavaleiro que, ignorando a aproximação de al-Farah, permanecia imóvel, envolvido pela capa preta que o fazia parecer uma assombração.

            O alcaide de Sharish sabia que era impossível o outro não se ter apercebido da sua chegada e, por precaução, aproximou discretamente a mão direita do punho do seu alfange. Nesse momento ouviu o desconhecido dizer:

- Também me parece sensato procurar a protecção do alfange, mas não é para mim que precisarás de o voltar, al-Farah – e, obrigando o cavalo a dar meia-volta, revelou a sua identidade ao alcaide de Sharish que, com surpresa, reconheceu nele o seu amigo al-Udhri.

            Os dois cumprimentaram-se, revelando a satisfação que ambos sentiam por encontrar um amigo naquelas terras inóspitas. Al-Udhri era um homem de estatura média e olhos verdes, uns olhos que a roupa escura destacava ainda mais, tornando-os quase magnéticos e provocando a sensação de poderem brilhar no escuro. Uns olhos que revelavam uma força enorme, capaz de transmitir segurança nos momentos mais críticos, mas que podiam também tornar-se ameaçadores, sem ao mesmo tempo deixarem de evidenciar uma grande generosidade.

Al-Farah conhecera al-Udhri através de Fatmah. Fora ele quem libertara a moura do duplo encantamento em que esta caíra, muitos anos antes do primeiro ter chegado às Terras Encantadas. Fora ele também quem roubara ao rei dos basiliscos o grande bloco de cristal que Fatmah deixara à guarda do alcaide de Sharish instantes antes de se ter dissipado[1].

- Finalmente vejo um rosto amigo – exclamou al-Farah.

E, ao observar melhor o rosto de al-Udhri, acrescentou:

- Mas vejo que algo vos preocupa.

- Venho falar com o alcaide de Abo. Pouco antes da vossa chegada apercebi-me do silêncio em que o castelo e o povoado estão mergulhados. Os habitantes de Abo são pouco numerosos, mas tal quietude sugere que algo de errado aconteceu.

- Circulam alguns rumores que, a serem verdadeiros, significam que as Terras Encantadas se tornaram um local pouco seguro.

- A que rumores vos referis?

- Diz-se que Abu Sakan se colocou ao serviço dos Encobertos e que está a ajudar Cassima a reunir um grande exército.

- Não são rumores, meu amigo. Os poderes de Cassima aumentaram de forma surpreendente e isso só pode ser explicado pela intervenção dos Senhores do Mal. O poder que agora possui permite-lhe forçar os que não aceitam o seu domínio de livre vontade a integrar uma aliança de todo o povo-serpente, que é controlada por ela.

- À semelhança do que Zahara fez com o povo das águas – observou al-Farah, pensativo.

- Sim, mas a Senhora das Águas usa essa aliança para resistir às forças do mal, enquanto Cassima usará o seu exército para submeter quem se opuser à sua vontade.

- Dissestes que estas notícias são mais que rumores. Tendes a certeza disso?

- Cheguei a esta região há alguns dias e tenho observado as movimentações de guerreiros, alcaides e vális, todos pertencentes ao povo-serpente, que estão a dirigir-se ao palácio de Cassima, situado a curta distância daqui. Vêm de todos os territórios das Terras Encantadas para prestar vassalagem a Cassima. E os que se recusarem a fazê-lo tombarão, se não tombaram já, perante o seu perverso poder.

- Credes então que foi isso que sucedeu às gentes deste povoado?

- Os habitantes de Abo não pertencem ao povo-serpente. Vivem da caça e da mineração, são discretos e austeros, mas a cobiça da Senhora das Serpentes pode ter sido despertada pelo ouro que o povo de Abo recolhe neste rio. Diz-se que o tesouro do alcaide é tão grande quanto a simplicidade da sua casa.

E, voltando a montar, acrescentou:

- Já perdi a conta dos anos que vagueio por este mundo e dos perigos que enfrentei, mas ainda hoje me surpreendo com as diferentes formas que as forças do mal podem assumir. Quem sabe que sinistra sombra terá descido sobre esta terra?

 

Os Mouros das Terras Encantadas - As Sete Bruxas

 

Al-Farah montou também, determinado a acompanhar o amigo. Ambos instigaram os cavalos para que atravessassem o rio naquele local onde a água era pouco profunda, mas os animais sacudiram a cabeça e sopraram, nervosos, recusando-se a andar. O cavalo de al-Udhri empinou-se e os mouros viram um gato cinzento partir a correr, de entre as patas do animal, em direcção à floresta.

Perante a insistência dos dois guerreiros as montadas acabam por avançar para a água, ainda que manifestando um persistente nervosismo.

- Olhai – disse al-Farah, com o olhar fixo na margem oposta. – Alguém nos aguarda do outro lado do rio.

Al-Udhri seguiu a indicação do amigo e viu uma moura usando um longo vestido roxo debaixo de uma capa azul brilhante. Quando se aproximaram ambos notaram os cativantes olhos da rapariga e as minúsculas gotas de chuva presas ao seu cabelo negro, brilhando como diamantes. Dois gatos, um negro, outro branco com manchas cinzentas, roçavam-se preguiçosamente nos tornozelos da bela moura.

Depois de atravessarem o rio os dois guerreiros desmontaram e al-Udhri dirigiu-se à rapariga que os observava com uma expressão ansiosa:

- Sou Afan al-Udhri e este é Balen al-Farah. Procuramos o alcaide de Abo. Podeis dizer-nos, senhora, por que está esta terra tão deserta?

A moura abriu os lábios para falar, mas passaram alguns instantes antes que a sua voz se fizesse ouvir:

- Eu chamo-me Sadya, senhor. Não vos posso levar ao alcaide porque uma desgraça se abateu sobre Abo e todos os seus habitantes – a voz da moura era suave, mas insegura, quase trémula.

- Uma desgraça? – perguntou al-Udhri.

- Sim, senhor. Sete bruxas lançaram um feitiço terrível sobre o meu povo e apoderaram-se do castelo. Eu fui a única que conseguiu fugir e tenho vivido escondida desde então.

A moura interrompeu-se, olhou para trás, na direcção do castelo, mostrando-se assustada e acrescentou, inquieta:

- Não é sensato ficarmos aqui mais tempo. Podem ver-nos.

Os dois amigos olharam-se surpreendidos. Raramente as bruxas representavam uma ameaça tão preocupante.

- Peço-vos que me ajudeis, senhores, mas não fiquemos aqui mais tempo. Vinde comigo e levar-vos-ei à casa onde tenho vivido escondida durante estes dias terríveis. Aí poderei contar-vos em segurança tudo o que aconteceu.

Por o trilho que dava acesso ao povoado ser pouco indicado para as patas dos cavalos e por os animais mais uma vez se recusarem a avançar, deixaram-nos perto da margem do rio. Era hábito, na presença de bruxas, os cavalos recusarem-se a andar, mas era a primeira vez que os mouros viam isso acontecer estando as bruxas tão afastadas, o que os levou a concluir que estas possuíam um poder invulgar.

A moura conduziu-os por um carreiro estreito e íngreme, que calcorreava com passos leves e ágeis. Os dois gatos caminhavam ao lado dela, como se tivessem a preocupação de a guiar e proteger.

Depois entraram nas ruas estreitas e sinuosas de Abo, onde reinava um silêncio sinistro. Al-Farah olhou para o amigo e percebeu pela expressão no seu rosto que ele pressentia uma ameaça pairando sobre eles. Conhecia al-Udhri havia mais de vinte anos, sabia que ele estava longe de ser o tipo de pessoa que se assustava facilmente e que possuía uma intuição muito apurada, por isso percebeu que corriam um risco mais sério do que inicialmente supunham.

Por fim entraram numa casa pequena como todas as outras, onde a moura os conduziu até uma sala de paredes despidas, convidando-os a sentarem-se sobre algumas almofadas de seda dispostas sobre um grande tapete que cobria o chão. O colorido da seda delicada e os sofisticados motivos da tapeçaria contrastavam com a simplicidade da casa.

Sadya libertou-se da capa que usava sobre o vestido e vazou num elegante bule de prata a água que aquecera num recipiente de ferro fundido, à lareira, preparando um chá para os dois convidados.

- Devíeis apagar a lareira, senhora, ou o fumo denunciar-vos-á aos olhos das bruxas – aconselhou al-Udhri.

A moura olhou para o fogo, hesitante, e por fim disse:

- As bruxas estão no castelo e raramente saem de lá. Além disso, apesar de perigosas, são pouco inteligentes. Não creio que este pequeno conforto seja suficiente para revelar o sítio onde me tenho escondido.

Os dois amigos entreolharam-se surpreendidos com a ingenuidade que a rapariga demonstrava.

- Contai-nos, então, o que aconteceu ao vosso povo, senhora – pediu al-Farah, percebendo que era necessário agir depressa antes que as bruxas descobrissem o refúgio da rapariga.

Com gestos delicados, a moura serviu-lhes um chá de aroma doce e inebriante. O bule de prata e as chávenas de porcelana pintada com traços elegantes e coloridos pareciam desenquadrados naquela casa pequena e modesta.

Os dois guerreiros estavam preocupados. Sabiam que a qualquer momento as bruxas podia observar o fumo que saía da chaminé e descobrir a sua presença. Se eram tão poderosas quanto a rapariga dizia, isso podia tornar-se um problema sério. Era imperativo que Sadya lhes contasse depressa o que tinha acontecido para encontrarem um meio de libertar Abo do feitiço das sete bruxas.

- Como é possível que todo o povoado tenha cedido ao feitiço das bruxas? – perguntou al-Udhri, levando aos lábios a chávena onde fumegava o chá de aroma intenso. Um aroma doce e delicado que contrastava com o travo ligeiramente seco que a bebida largava ao ser saboreada.

Estas bruxas possuem um livro que encerra poderosos segredos de magia – disse Sadya.

Al-Farah engoliu o delicioso chá, sentindo a bebida transmitir-lhe um calor que o reconfortava após as horas de viagem passadas à chuva. O calor difundiu-se por todo o seu corpo descontraindo-lhe os músculos e provocando uma ligeira sonolência. O alcaide de Sharish achou que não era altura para ceder à indolência e levantou-se, aproximando-se da janela de onde se observava o vale rodeado pela densa floresta e a chuva que insistia em molhar aquela paisagem verde e dourada. Nesse momento sentiu que a vista se enevoava e um sono irresistível se apoderava dele, enfraquecendo-lhe as pernas.

Al-Udhri correu para o amigo ao vê-lo cair e, sentindo o sono que começava a dominá-lo também, olhou para Sadya. Viu o rosto da rapariga que lhe sorria por trás da névoa que lhe turvava a visão e desembainhou o sabre, esforçando-se por se manter de pé e consciente. Instantes antes das pálpebras se terem cerrado viu ainda três gatos rodearem Sadya e, enquanto se roçavam na moura, incharam e mudaram de forma até assumirem o aspecto de mulheres.

 

***

 

Quando acordou al-Udhri reconheceu a sala da torre de menagem do castelo, onde o alcaide de Abo o recebera várias vezes. Mas estava diferente desta vez. Iluminado por três archotes fumarentos e uma lareira moribunda aquele espaço amplo mostrava-se sombrio e húmido. Nem o ar frio que entrava pela porta aberta conseguia tornar o ambiente menos saturado. Apoiados em mesas e bancadas, espalhados ao acaso, viu vários objectos cuja finalidade desconhecia.

Olhou para o lado e viu al-Farah que estava também a acordar. Junto deles estava mais um homem, totalmente desperto e amarrado por uma espessa corda. Tinha as botas sujas de lama e o estado das suas roupas sugeria que andava há muito tempo em viagem. O seu turbante desenrolara-se e estava tombado no chão junto dele.

Al-Udhri olhou para os pulsos e viu-se amarrado por uma trança de cabelos que estava presa a uma argola de ferro cravada na parede. Olhando em volta viu que várias bruxas se espalhavam pela sala, cada uma entregando-se a uma tarefa diferente. Uma delas mexia incessantemente um grande caldeirão que estava sobre o fogo, outra lia em voz alta, numa língua que o mouro não conseguiu identificar, um livro que estava colocado sobre um suporte de ferro, num lugar de destaque na sala. Uma terceira remexia os objectos colocados sobre uma mesa e outra, sentada num banco perto dos presos, enrolava um novelo de lã enquanto as restantes entravam e saíam constantemente do salão.

Recordou a última imagem que vira antes de adormecer, os gatos a tomarem a forma de bruxas, e entendeu por que razão os cavalos se tinham mostrado relutantes a avançar perto de Sadya: porque as bruxas a acompanhavam sob a forma de gatos.

Com uma insólita tranquilidade, Sadya passeava pela sala fazendo breves comentários às mulheres, como se controlasse as suas tarefas.

Al-Udhri puxou com força a trança que lhe prendia os pulsos, mas antes de completar o seu gesto a bruxa que se encontrava mais perto gritou uma amálgama de palavras ininteligíveis e, nesse momento, os cabelos engrossaram até as tranças que o prendiam a ele e a al-Farah se transformarem em grossas cordas, como a que amarrava o desconhecido que os acompanhava. O latido insistente de muitos cães chegava-lhe aos ouvidos vindo de fora da torre, contribuindo para, juntamente com a confusão do interior, criar um ambiente desagradável e incómodo.

Al-Farah, já totalmente desperto, imitou o amigo tentando libertar-se, mas a resistência daquelas cordas era muito superior à sua força. Sem desistir, al-Udhri agarrou a corda com ambas as mãos no ponto onde se unia à sólida argola de ferro. A bruxa que estava perto deles olhou-o com curiosidade. Depois, de entre as mãos do mouro, começou a sair fumo. A bruxa levantou-se de um salto e chamou Sadya, alarmada:

- Senhora!

A moura aproximou-se.

- Ele está a queimar a corda – exclamou a bruxa.

Sadya aproximou-se e observou o guerreiro por alguns instantes, a seguir um sorriso cínico despontou no seu rosto e disse:

- O delicioso chá que vos ofereci não teve só a capacidade de vos adormecer, mas também de reduzir a um grau insignificante os vossos poderes – e afastou-se, dirigindo algumas palavras bruscas a duas bruxas que entravam na sala.

Al-Udhri abriu as mãos e constatou que, apesar do seu esforço, por baixo de uma leve camada de cinza a corda continuava intacta.

- Tínheis razão quando falastes das diferentes máscaras que as forças do mal podem usar – disse al-Farah.

- Sim, mas esqueci-me de prestar atenção às minhas próprias palavras e acabámos por fazer figura de tolos. É verdade que as bruxas se apoderaram do castelo, mas é Sadya quem as controla.

- Pelo menos agora sabemos o que está a acontecer. Queríamos ajudar o povo de Abo e ainda o podemos fazer – sugeriu al-Farah.

- Como? – perguntou, entre uma gargalhada grosseira, o desconhecido que estava junto deles.

- Quem sois vós? – perguntou al-Udhri.

 

Os Mouros das Terras Encantadas - As Sete Bruxas

 

- Um salteador que tentou aproveitar-se de uma rapariga solitária e indefesa – respondeu Sadya, aproximando-se novamente dos prisioneiros. – E que em breve seguirá o destino dos outros que o acompanhavam.

- Maldita feiticeira! – gritou o homem, puxando violentamente a corda que o prendia. Embora não fosse muito alto era um homem entroncado e aparentava possuir alguma força, mas esta revelava-se insuficiente para o libertar.

Sadya voltou a afastar-se, mantendo nos lábios o sorriso cínico. Subiu a escada de pedra que conduzia ao piso superior e manteve-se ausente por algum tempo, o que fez diminuir o nervosismo das bruxas. Até a luz avermelhada e fraca dos archotes pareceu tornar-se menos sinistra.

Quando regressou a moura voltou a circular entre as atarefadas bruxas, dando-lhes instruções e agindo com uma calma que raiava os limites da alucinação.

Al-Farah e al-Udhri observavam com atenção tudo o que se passava à sua volta, procurando uma forma e uma oportunidade para se libertarem da cilada em que tinham caído. Por vezes trocavam olhares, mas mantinham-se em silêncio. O salteador mostrava-se nervoso e inquieto dando puxões violentos e infrutíferos à corda que o prendia.

- Se soubessem o que vos espera não estavam tão tranquilos – exclamou ele, sem esconder algum desprezo na sua voz rouca.

- O que é que nos espera? – perguntou al-Udhri.

O salteador ia responder, mas deteve-se ao ver que uma das bruxas se aproximava. Trazia nas mãos três tigelas grosseiras de barro vermelho, que pousou no chão junto a cada um dos prisioneiros. Os dois amigos olharam para a refeição que lhes era servida e viram um caldo espesso, mal cheiroso e de cor indeterminável onde boiavam pedaços de qualquer coisa que não conseguiram identificar.

A bruxa encostou-se ao salteador exibindo uma insólita sensualidade. Acariciou-lhe o peito e sorriu, revelando um dente podre e as gengivas escuras. O cabelo sujo e despenteado caía-lhe sobre os ombros e sobre o peito, onde o vestido se abria num generoso decote. Continuou a acariciar o homem. As suas mãos percorreram-lhe o peito, os ombros e subiram até ao pescoço enquanto lhe murmurava algo ao ouvido.

O homem reagiu com desconfiança, exibindo primeiro um misto de medo e repugnância que deram lugar a uma expressão de perplexidade e, por fim, pareceu ceder à sedução. Quando ninguém o esperava a bruxa espetou-lhe um alfinete no pescoço.

Mais que dor, o alfinete causou uma reacção de espanto no rosto do homem. De imediato a bruxa se afastou dois ou três passos, ficando a olhar para o homem. Em poucos instantes este caiu de joelhos, curvando-se sobre o estômago, como se dores insuportáveis o assolassem. Depois o seu corpo começou a transfigurar-se. Os braços e as pernas definharam, as mãos e os pés encolheram até assumirem a forma de pequenas patas, o corpo adelgaçou-se, deixando cair as roupas que o cobriam. Mas foi o rosto que sofreu a modificação mais impressionante: os dois maxilares estenderam-se para a frente e deles saíram dentes fortes e aguçados, enquanto o crânio encolhia e tomava uma forma achatada. Enquanto sofria esta mutação, reagindo com gemidos e gritos de dor, sobre a pele do seu corpo ia crescendo um pelo escuro e curto, mas abundante. E em poucos segundos o homem viu-se transformado num cão de aspecto feroz.

Assim que a transformação terminou, a bruxa aproximou-se do cão e, com gestos rápidos, colocou-lhe uma coleira, arrastando-o para fora do salão por uma corrente que lhe estava fixada.

   Al-Farah e al-Udhri começavam finalmente a perceber que destino fora dado aos habitantes de Abo e a origem dos incessantes latidos que vinham da rua. Sadya aproximou-se deles com os passos calmos com que deambulava pelo salão.

- Não fiqueis assustados – disse, olhando-os com o seu sorriso hipócrita – não é destino de tão nobres guerreiros como vós serem transformados em mastins.

- Acreditai que não vos caberá a vós determinar o nosso destino – respondeu al-Udhri.

Al-Farah olhou para o amigo e percebeu que o seu comentário era mais que uma provocação ou uma tentativa de exibir segurança. Al-Udhri pronunciara aquelas palavras com a certeza do que afirmava e isso transmitiu algum alento ao alcaide de Sharish, embora não vislumbrasse como poderiam sair da situação em que se encontravam.

- Al-Udhri, o feiticeiro que lê o futuro – observou a moura, sarcástica. Sadya sentara-se junto dos dois homens, mas guardando alguma distância, fora do curto espaço de liberdade que as cordas lhes concediam. – Al-Udhri, o sábio que se deixou enganar por uma jovem desamparada – continuou, assumindo o tom de voz inseguro com que falara aos dois guerreiros quando os encontrou na margem do rio.

Al-Farah reparou que, por mais de uma vez, a moura se mostrou incomodada e evitou o olhar intenso e perturbante do amigo.

- Por que vos juntastes às bruxas? – perguntou al-Farah , interrompendo-a. – Que mal te fez o povo de Abo?

- Eu não me juntei às bruxas – exclamou irritada. – As bruxas servem-me, são escravas do meu poder. Como é escravo do meu poder todo o povo de Abo.

- É isso que procurais? – perguntou al-Udhri. – Poder?

- Não procuro poder pois já o tenho. Procuro vingança e repor o respeito que me é devido – calou-se, subitamente. No seu rosto a frieza deu lugar a uma expressão melancólica.

- Quando vivíamos nas Terras Esquecidas os rum cercaram o nosso povoado – continuou a moura. – O seu exército era tão grande que cobria os montes até onde a vista alcançava. Os nossos guerreiros resistiram com coragem, mas as máquinas de guerra dos rum assolavam as muralhas do castelo, derrubando-as e arrastando na sua ruína os homens que as defendiam. Todos teríamos sido chacinados se o meu pai não tivesse encantado os que ainda sobreviviam, mas para o fazer, ele próprio ficou nas Terras Esquecidas e foi morto. O meu pai era um homem sábio, um mago. Tinha registado todo o seu conhecimento num livro que me entregou nos seus derradeiros momentos de vida. Trouxe o livro comigo. Os dias de solidão a que a ingratidão deste povo me votou consumi-os a estudar esse livro.

- É dessa solidão que pretendeis vingar-vos? – perguntou al-Udhri. – E para isso usastes um livro de magia com que enfeitiçastes o vosso próprio povo…

- Que sabeis vós deste povo e da forma como sempre me tratou para terdes a impertinência de me dar lições? – exclamou, levantando-se bruscamente. – Perdi o meu pai para que estas gentes salvassem as suas vidas miseráveis e nunca recebi um gesto de gratidão. Para cúmulo da humilhação, o filho do alcaide desposou uma camponesa, desprezando o afecto que eu lhe dedicava. Era já tempo de aprenderem a respeitar-me.

- Esperais conquistar respeito com feitiçarias? – observou al-Farah. – Igualastes-vos a uma vulgar bruxa.

- Uma vulgar bruxa não age com a subtileza que me caracteriza, senhor – o sorriso cínico regressou ao seu rosto. – E garanto-vos que não demorei muitos dias a concluir o meu plano. Descobri um local onde as bruxas da região costumam reunir-se. Observei os seus hábitos e segui algumas até as encontrar a sós. Então, com a promessa de lhes revelar alguns truques de magia e de algumas moedas de ouro conquistei-lhes a lealdade. Com o seu auxílio, deitei nas fontes e poços de Abo a mesma poção que misturei no chá que vos dei a beber. Depois só tive de esperar que todos adormecessem para lhes espetar nos pescoços os alfinetes que os condenaram à condição de cães. Mas uma matilha tão grande precisa de ser alimentada e, é para lhes servir de alimento que vós estais guardados.

Al-Farah notou que o amigo deixara de ouvir a moura. A sua atenção parecia estar concentrada em algo que estava fora do salão e o seu rosto exibia indícios de apreensão.

Nesse momento gerou-se uma inesperada agitação entre as bruxas. Sadya encaminhou-se para elas falando-lhes com voz firme e perguntando o que se passava. As mulheres mostravam-se aterrorizadas e moviam-se de um lado para o outro, em total desalento, atropelando-se umas às outras.

- Temos que fugir… Depressa! – ouviu-se uma delas dizer entre as ininteligíveis exclamações e pragas que todas proferiam.

 

Os Mouros das Terras Encantadas - As Sete Bruxas

 

Sadya agarrou uma das mulheres por um braço e sacudiu-a violentamente:

- Calai-vos! Ninguém foge, a menos que eu o ordene.

- O Homem da Foice vem para aqui. Nós sentimo-lo aproximar-se – disse uma das bruxas, com o desespero evidente no rosto.

- Vem castigar-nos por termos obedecido às ordens de outra pessoa que não ele – acrescentou outra.

- Pois que venha – disse a moura, decidida, encaminhando-se para um baú. – Eu estarei à sua espera.

Al-Farah olhou para o amigo e ele confirmou:

- Eu também senti a aproximação do Senhor das Bruxas.

Sadya introduziu a chave no cadeado que fechava uma arca, rodou-a, levantou a tampa e tirou de lá um grande livro de capa gasta e folhas escurecidas pelo tempo.

- Tranquem a porta – gritou às bruxas.

As mulheres apressaram-se a obedecer, atropelando-se umas às outras enquanto fechavam e escoravam a pesada porta de carvalho reforçada com barras de aço.

De fora chegavam-lhes os latidos aflitivos dos cães anunciando a presença de alguém que os deixava inquietos. De repente ouviu-se uma forte pancada. E logo a seguir outra. Mais algumas se seguiram ao mesmo tempo que o ladrar dos cães se mostrava cada vez mais angustiado.

- Ele está a arrombar a porta do castelo – exclamou uma bruxa, aterrorizada.

Sadya permaneceu de pé, imóvel, segurando o livro com uma das mãos e olhando para a porta da torre. A sua expressão era gélida, não demonstrando medo nem ansiedade. Apenas aguardava a chegada do Homem da Foice, o comedor de homens.

Al-Farah e al-Udhri entreolhavam-se conscientes de que a situação em que se encontravam estava a tornar-se cada vez mais crítica. As cordas que os prendiam, e que tinham tomado forma a partir das insólitas tranças de cabelo, continuavam a resistir aos puxões dos dois mouros.

 Depois de um grande estrondo as pancadas deixaram de se ouvir e os cães silenciaram-se, soltando apenas alguns gemidos assustados. O Homem da Foice, o mais fiel servidor dos Encobertos, arrombara a porta do castelo e encaminhava-se para a torre.

Não passou muito tempo até que a porta da torre estremecesse e algumas frestas se abrissem nas sólidas pranchas de carvalho. Duas bruxas abraçaram-se desesperadas, outras duas treparam a escada estreita que conduzia ao piso superior, enquanto as restantes corriam pelo salão como animais encurralados em busca de uma saída inexistente.

As pancadas na porta continuaram e não passaram mais que alguns instantes até esta ceder, deixando entrar uma criatura com quase três metros de altura que empunhava uma grande foice. A túnica preta e sem mangas que vestia revelava dois braços grossos e peludos e, a boca, quase oculta por uma barba espessa, abriu-se num estrondoso rugido exibindo dentes grandes e tortos que se sobrepunham.

Sadya agarrou o livro com as duas mãos e estendeu-o na direcção do Homem da Foice, gritando palavras ininteligíveis. Uma bola de fogo emergiu da capa do livro e voou na direcção da medonha criatura, explodindo violentamente.

Os dois mouros foram projectados contra a parede e o mesmo aconteceu a Sadya que foi cair perto deles.

Um grande rombo abriu-se na parede, em volta da porta, e uma parte do pavimento do piso superior abateu por ter perdido o apoio que a parede derrubada lhe proporcionava. Uma das bruxas que tinha subido a escada caiu pelo buraco que se abriu sob os seus pés e tombou a poucos passos do Homem da Foice. Para surpresa de todos este resistiu incólume à bola de fogo com que Sadya o atingira.

- Não basta ler o livro para dominar a magia que ele encerra – disse al-Udhri à moura, que se erguia ainda atordoada. – O livro revela-te conhecimento, mas a sabedoria necessária para o apreender tem de nascer contigo.

Já de pé, a moura passou a mão pela testa, pelos cabelos em desalinho e olhou em volta procurando o livro. Encontrou-o a poucos passos de si, tombado sobre o entulho que resultara da explosão. Tinha algumas folhas rasgadas e outras queimadas. Mesmo assim, pegou-lhe cuidadosamente.

A bruxa que caíra do piso superior ia também levantar-se, mas o Homem da Foice deu dois passos em frente e cravou-lhe nas costas a lâmina ferrugenta da foice que empunhava. As outras bruxas gritaram e correrem em desordem pelo salão, procurando manter-se longe do alcance do seu senhor e da arma com que pretendia puni-las.

No momento em que a criatura matou a mulher, as cordas que prendiam os dois amigos retomaram a forma de cabelos entrançados. Ao aperceberem-se disso, os mouros rebentaram-nas facilmente.

- Estes cabelos pertenciam à bruxa que o Homem da Foice matou – observou al-Udhri. – Ao pôr fim à sua vida libertou-nos.

E, remexendo os objectos amontoados sobre uma bancada, acrescentou:

- Depressa. Procuremos as nossas armas.

Al-Farah imitou-o, vasculhando o conteúdo de um baú.

O servo dos Encobertos agarrou uma bruxa por um braço e fê-la rodar violentamente até a mulher bater com a cabeça na parede, esmagando o crânio. Sadya, aproveitou a confusão que se gerara e saiu do salão pelo espaço aberto na parede desmoronada, mas o Homem da Foice não estava disposto a deixar escapar a responsável pela insubordinação das suas servas. Perseguiu-a com os seus passos longos e possantes e agarrou-a pouco antes de ela alcançar o portão destroçado do castelo.

Com uma das suas grandes mãos a criatura agarrou-lhe o pescoço, com a outra uma perna e, usando uma força surpreendente, lançou-a pelo ar sobre a muralha. O corpo da rapariga foi cair em cima das ameias. Ainda que semi-inconsciente Sadya agarrou-se como pôde para não se despenhar do alto da muralha, numa queda fatal. Mas o servo dos Encobertos não desistiu e subiu às ameias decidido a acabar com a moura.

A chuva cessara e as nuvens tinham aberto algum espaço para a Lua, deixando-a brilhar sobre a terra molhada.

Nesse momento os dois guerreiros, que entretanto haviam recuperado as suas armas, saíram da torre. Al-Udhri subira a um dos pisos superiores e atravessara uma porta que dava acesso às ameias. Al-Farah saíra pelo buraco aberto na parede e, ao ver o que esperava Sadya, subiu rapidamente a escada perseguindo o Homem da Foice. O cheiro que a criatura exalava tornava o ar em seu redor quase irrespirável, mas essa não era a principal preocupação do mouro ao aproximar-se do Senhor das Bruxas. A lâmina mortal da sua foice, a força imensa dos seus braços e a rapidez dos seus movimentos tornavam-no invencível. Ao aperceber-se da aproximação do mouro, a criatura virou-se para trás e atacou-o com um pontapé. A grande bota de couro acertou no alcaide de Sharish apenas de raspão, mas foi o suficiente para o fazer cair, rebolando pelos degraus.

Al-Udhri lançou-se sobre a criatura atacando-a com o sabre, mas o Senhor das Bruxas aparou o golpe com a foice e desferiu um soco no peito do mouro que o fez cair para trás.

Concentrados no poderoso inimigo que defrontavam, os dois guerreiros não tiveram oportunidade de prestar atenção à grande jaula que ocupava quase totalmente o pátio do castelo, onde se acumulavam dezenas de cães que não paravam de ladrar e se atiravam violentamente contra as grades.

Enquanto o combate decorria, Sadya agarrava-se ao parapeito, fazendo um esforço desesperado para trepar até ao lado de dentro da muralha. O Homem da Foice continuava a atacar al-Udhri e este pouco mais podia fazer que esquivar-se aos seus golpes, esperando que al-Farah recuperasse a tempo de ajudar Sadya. O mouro sabia que o servidor dos Encobertos estava muito para além das suas forças. E mesmo que os guerreiros de Abo estivessem em condições de lutar, todos juntos não seriam suficientes para o derrotar.

Al-Farah voltou a subir às ameias e atacou o Senhor das Bruxas, atenuando a agressividade com que combatia o amigo. O espaço estreito onde os três lutavam dava alguma vantagem aos mouros que conseguiam movimentar-se com mais agilidade que a corpulenta criatura. Ainda assim, a sua força e rapidez deixavam claro que não conseguiriam resistir-lhe durante muito mais tempo.

A certa altura o Homem da Foice olhou para o céu e viu os vultos das bruxas sobreviventes que se tinham posto em fuga, voando sob as nuvens. Com um rugido enraivecido carregou sobre al-Farah, que lhe barrava o acesso à escada. Os golpes rápidos da foice obrigaram o mouro a recuar e o impacto do punho do Senhor das Bruxas no seu estômago fê-lo voar para trás, por pouco não caindo do alto da muralha.

Al-Udhri apressou-se a socorrer o amigo, mas quando reagiu à intempestiva investida do Homem da Foice este já descia os degraus de pedra, para se pôr em perseguição das bruxas. Então o mouro dirigiu-se a Sadya que, finalmente conseguira sair do parapeito para o lado de dentro das ameias. As suas mãos sangravam, rasgadas pelas pedras ásperas a que se agarrara com todas as forças, mas a moura manteve os olhos fixos no chão e nada disse a al-Udhri.

Depois o guerreiro aproximou-se do amigo que, com alguma dificuldade, recuperava o fôlego após a violenta pancada do Homem da Foice. Al-Farah tinha alguns golpes no rosto, provocados pela queda na escada e a dor no abdómen era ainda forte, mas não sofrera ferimentos de maior gravidade.

- Que faz ela? – perguntou al-Udhri.

Ambos olharam para Sadya que, junto à grande jaula, falava baixinho aos cães, tranquilizando-os. Depois abriu a porta e puxou um dos animais para fora. Acariciou-lhe a cabeça e tacteou-lhe o pescoço até encontrar o alfinete que retirou, puxando-o devagar. Sem esperar para ver o resultado, largou o animal e foi buscar outro. E, um a um, conforme Sadya lhes ia removendo os alfinetes, todos os cães foram retomando a aparência que possuíam antes de terem sido enfeitiçados.

Os dois guerreiros desceram das ameias e ficaram a observar a transformação dos cães a quem Sadya devolvia a aparência natural. Mulheres, homens e crianças iam tomando forma, livres do feitiço. As pessoas abraçavam-se felizes, ou aguardavam ansiosos a libertação de familiares enquanto olhavam Sadya com um misto de medo e raiva, vendo a retirar os alfinetes dos pescoços dos cães.

Também os salteadores que a moura havia capturado foram libertados do feitiço, mas estes não perderam tempo a regozijar-se e aproveitaram a agitação para se retirarem do castelo discretamente.      

 

***

           

Sadya seguia montada num cavalo castanho, entre al-Udhri e al-Farah. O castelo e o rio tinham ficado para trás e entravam agora na floresta. O alcaide de Abo quisera matar a moura, mas os dois guerreiros tinham-no convencido a não o fazer. No entanto, al-Udhri não esperava que o amigo a convidasse a acompanhá-los e embora tivesse cedido não fazia qualquer esforço para mostrar que isso lhe desagradava.

            Não chovia, mas a vegetação estava molhada e soprava um vento gélido que arrancava as poucas folhas mortas que ainda permaneciam nas árvores.

            - Salvastes-me duas vezes – disse a rapariga. – Primeiro do Homem da Foice e a seguir do povo de Abo. Por que o fizestes se sabíeis que momentos antes eu tencionava matar-vos?

- Porque não somos iguais a vós – respondeu al-Udhri bruscamente. Olhando para os alforges que o cavalo da moura carregava, percebeu que trazia consigo o livro escrito pelo pai.

- Depois da forma desastrosa como o usastes, esse livro ficou ilegível – disse al-Udhri. – Por que trazeis convosco um livro destruído e inútil? – falava-lhe sem a olhar, não escondendo o desprezo que lhe guardava.

- Não é só com o que está escrito nos livros que se aprende – respondeu ela. – Certamente aprenderei mais agora, ao reflectir sobre acontecimentos que levaram a que ele tenha sido destruído.

Ao ouvir estas palavras o mouro olhou finalmente para a rapariga.

- Talvez Sadya tenha aprendido mais do que nós pensávamos – disse al-Farah, sorrindo.

Tinham-se aproximado de uma estrada e a rapariga fez o cavalo parar.

- Agradeço-vos o que fizeram, senhores, mas os nossos caminhos devem continuar separados – e puxou as rédeas do cavalo, fazendo-o seguir para oeste.    

            Os dois amigos olham-se, numa troca de impressões silenciosa sobre a mudança que a moura sofrera.

            - Tenho que me apressar – disse, por fim, al-Farah. – É tempo de retomar a viagem para o palácio de Zaida. Quereis acompanhar-me?

            - Há muito que não viajamos juntos e bem gostaria de vos acompanhar, mas devo ficar mais algum tempo nesta região. É importante descobrir a dimensão exacta dos planos de Cassima. Transmiti as minhas saudações à senhora Zaida e informai-a da aliança selada entre Cassima, Abu Sakan e os Encobertos, pois tal união terá consequências graves em todos os territórios das Terras Encantadas.

            E os dois partiram em direcções opostas. Al-Faral olhou para trás e viu o perfil de al-Udhri ser apagado pela neblina que a manhã derramara sobre a floresta.