Os Mouros das Terras Encantadas

 
 
 
 

 

 

 

A CANGA DE OURO

 

 

 

Galisiya (Terras Encantadas), Verão de 1414

 

          O Sol quente batia nas encostas que comprimiam o vale, tornando difícil suportar as couraças e elmos de aço que os mouros usavam. Esse desconforto era ainda agravado por terem de permanecer imóveis em posições incómodas, de forma a manterem-se encobertos pelos arbustos e rochedos que cobriam a encosta sul do vale.

            Dois homens trocavam algumas palavras em voz baixa, entre longos intervalos de silêncio. Ocultos por trás de um penedo no topo da encosta, Balen al-Farah, alcaide de Sharish, e o seu amigo Diogo Mendo, olhavam para ocidente na expectativa de ver surgir os basiliscos.

            - A cota de malha de al-Zaide protege-o do olhar venenoso dos basiliscos, mas não dos bicos e garras aguçadas – disse Diogo Mendo, preocupado. O seu cabelo louro e solto contrastava com os turbantes que envolviam as cabeças dos outros homens.

            Ao longo do vale ouvia-se apenas o barulho causado pela água ao correr pelo leito rochoso do rio e que se tornava mais intenso por acção das montanhas erguidas ao longo das margens, como duas imensas muralhas que guardavam o curso de água serpenteante. Os pássaros deixaram de chilrear e fugiram para longe, parecendo adivinhar que em breve aquele local calmo e desabitado se tornaria o cenário de uma batalha.

            - Tenhamos confiança. Al-Zaide já enfrentou situações mais arriscadas e foi bem sucedido – respondeu al-Farah.

            Nas últimas semanas alguns bandos de basiliscos tinham atacado vários povoados do norte das Terras Encantadas. Não eram numerosos, mas um só desses répteis podia destruir toda uma aldeia. A resistente camada de escamas que lhes cobria o corpo protegia-os do impacto de flechas, lanças e até das mais afiadas lâminas de sabre. Os basiliscos possuíam garras capazes de rasgar facilmente os corpos das vítimas, mas o que os tornava mais temíveis era a sua capacidade de causar a morte apenas com o olhar.  

O confronto directo com os basiliscos era quase sempre fatal e os mouros tinham que criar estratagemas para evitar a mais terrível arma desses animais.

Os territórios do sul responderam ao apelo dos do norte e enviaram vários exércitos para combater os répteis. Um desses exércitos era comandado por al-Zaide, filho do emir de Xelb, ao qual se juntara um grupo de guerreiros de Sharish e outro vindo da região central das Terras Encantadas, sob o comando de Mugawir.

Al-Farah e Diogo Mendo começaram a ouvir, ainda longe, o galope de um cavalo e os gritos arrepiantes que o perseguiam. Os dois homens entreolharam-se e, sem mais palavras, o último correu para junto dos guerreiros que estavam sob as suas ordens, enquanto o alcaide de Sharish redobrou a atenção para, quando chegasse o momento certo, fazer o sinal que todos aguardavam para iniciar o ataque.

Passados poucos minutos al-Zaide entrou no vale, apressando o cavalo para que corresse cada vez mais depressa. Era seguido por mais de vinte basiliscos que iam ganhando terreno, aproveitando o cansaço do cavalo e o piso irregular por onde corriam.

O espaço entre o mouro e os répteis parecia distorcido, como acontece nos dias mais quentes quando o calor que o solo emana distorce o ar junto ao chão. Mas neste caso devia-se às ondas lançadas pelos olhos dos basiliscos que tentavam atingir o cavaleiro que perseguiam há meia-hora. Só não o matavam porque ele usava um elmo e uma cota de malha, feitos por Zahara, a Senhora das Águas, que o tornava imune a qualquer agressão feita por meio de magia e também ao olhar destas criaturas.

Al-Farah viu surgir uma cabeça entre os penedos no topo da encosta, do outro lado do vale. Era Mugawir que esperava, impaciente, o seu sinal para iniciar o ataque. O alcaide de Sharish viu que al-Zaide não conseguiria manter-se fora do alcance dos répteis durante muito mais tempo, mas era necessário que os arrastasse mais umas centenas de metros para o interior do vale para que ficassem ao alcance dos mouros que estavam espalhados ao longo das encostas. Se iniciassem o ataque demasiado cedo, ao aperceberem-se de que estavam a cair numa emboscada, os basiliscos teriam tempo de voltar para trás e sair do alcance das armas, fazendo fracassar o plano.

De repente, o cavalo de al-Zaide tropeçou numa das grandes pedras soltas que cobriam o trilho, vestígios do que alguns séculos antes fora o pavimento liso de uma estrada importante, e atirou o cavaleiro ao chão.

Imediatamente al-Farah deu o sinal que todos aguardavam e, do topo da encosta norte, começaram a cair enormes blocos de pedra disparados pelas catapultas dos guerreiros de Mugawir, colocadas para lá do cume, fora do campo de visão dos répteis, mas suficientemente perto para os deixar ao alcance dos projécteis.

Os basiliscos que se precipitavam sobre al-Zaide, surpreendidos pelo violento ataque, esqueceram o mouro tombado e começaram a subir a encosta sul, procurando escapar às grandes pedras que caíam sobre eles, esmagando aqueles em que acertavam. Mas ao fazê-lo foram surpreendidos por outro ataque: por entre a vegetação densa e os penedos que cobriam a encosta, foram disparadas, por dezenas de máquinas, flechas com mais de dois metros de comprimento que atravessavam a resistente carapaça de escamas dos basiliscos, ferindo-os mortalmente. Essas máquinas, constituídas por um grande e forte arco montado sobre uma estrutura onde existia um mecanismo que esticava a resistente corda do arco, projectavam as flechas com uma violência incomparavelmente superior à de um arco normal.

No meio da confusão em que se misturavam os gritos cacarejados dos répteis com os guinchos das cordas das máquinas a serem esticadas, al-Zaide conseguiu erguer-se e correr em busca de um abrigo onde pudesse esconder-se das mortíferas criaturas. 

 

Balen al-Farah

 

A aparência dos basiliscos, os seus corpos enormes que em alguns casos atingiam quatro metros, cobertos de escamas cinzento-esverdeadas, as feias plumas castanhas que lhes cobriam a cauda e os membros dianteiros, o enorme bico em que terminavam as suas cabeças e de onde saíam uns silvos entrecortados, soando como um misto de cacarejo e do sopro enfurecido das serpentes, eram suficientemente assustadores para fazer fugir qualquer homem. Mas os guerreiros mouros tinham confiança nos seus chefes e mantinham-se firmes nos seus lugares, manobrando as catapultas e as máquinas que disparavam as grandes flechas, por trás dos penedos e arbustos que os protegiam da vista dos basiliscos. Tanto al-Farah como Mugawir já tinham comandado outras batalhas tão difíceis como aquela. E a coragem de al-Zaide, que fora sozinho provocar os répteis para os atrair até ao local da emboscada, transmitia-lhes a confiança para enfrentar aquelas criaturas que, na opinião de muitos, se assemelhavam a demónios.

Ao longo das duas encostas viam-se grandes manchas de arbustos secarem repentinamente até ficarem escuros como cinza, ao serem atingidas pelo olhar dos basiliscos na procura desespera dos inimigos invisíveis que os derrubavam.

As ameaçadoras criaturas corriam pela encosta com os seus passos desajeitados, mas rápidos e furiosos, ao encontro das enormes flechas, que os trespassavam antes que conseguissem chegar ao local de onde estas eram disparadas. Quando perceberam que aquela corrida apenas os conduzia à morte, regressaram ao fundo do vale onde, de novo, ficaram ao alcance das pedras projectadas pelas catapultas de Mugawir. Sem outra alternativa mergulharam no sulco que a água do rio abria no solo, para se manterem fora do alcance das flechas, mas a profundidade do terreno não os protegia das grandes pedras que continuavam a cair do céu, o que forçou os poucos sobreviventes a correr na direcção de onde tinham vindo.

Um dos basiliscos, porém, distinguiu o elmo brilhante de al-Zaide, que se escondera entre os arbustos e, apesar de os companheiros já estarem em fuga, correu furiosamente para o mouro. A vegetação em volta de al-Zaide murchou subitamente até não ser mais que palha seca, mas o mouro permaneceu imune ao olhar venenoso e desembainhou o alfange, sabendo que o poder da cota de malha não o protegeria das garras afiadas e do bico forte e aguçado como um grande espigão.

            Quando a criatura ficou a poucos passos de al-Zaide, esta ergueu-se nas patas traseiras e, com um movimento brusco do pescoço, lançou o bico em direcção ao mouro. Era um animal enorme, de espessas escamas cinzentas que exalava um odor tão putrefacto como a morte que arrastava sempre consigo. Os seus olhos eram totalmente negros, como profundos abismos e sobre a cabeça tinha uma grande crista vermelha e escura como uma crosta de sangue ressequido. As garras que lhe saíam dos membros dianteiros eram cinzentas e sujas, tão sujas como as plumas castanhas que lhe cobriam os membros superiores e a longa cauda. Mas nem a aparência nem a proximidade da criatura chegavam para amedrontar al-Zaide que, aproveitando o curto intervalo de tempo em que o réptil, ao erguer-se, expôs o ventre, menos protegido pelas escamas, saltou para a frente para o atingir com o alfange. Porém, o basilisco foi mais rápido, esquivou-se ao ataque e atingiu al-Zaide com uma pancada de um dos membros dianteiros que o atirou ao chão, deixando-o atordoado. De seguida debruçou-se sobre ele, preparando-se para lhe espetar o bico no peito. Nesse momento, al-Farah, que do abrigo onde se encontrava, vira o basilisco lançar-se sobre al-Zaide e começara a descer a encosta, correndo em direcção ao companheiro, saltou dobre o dorso do réptil e, agarrando o alfange com as duas mãos, concentrou todas as suas forças para lho cravar no pescoço. Mas ao embater contra as duras escamas a lâmina partiu-se e o basilisco sacudiu violentamente o corpo, atirando o alcaide ao rio. O nível da água era pouco profundo e o mouro não corria o risco de se afogar, arrastado pelo peso da couraça, mas ficou desarmado. Al-Zaide, que em poucos segundos recuperou a consciência, interpôs-se entre ele e o réptil para o proteger do olhar assassino. Nesse momento a criatura lançou um grito aterrador e, quando o filho do emir de Xelb esperava mais um golpe do poderoso bico, o réptil deu meia volta e fugiu, ao longo do vale, numa fúria assustada, na direcção que tinham seguido os outros basiliscos.

Os dois mouros olharam-se sem entender o que acontecera. Já se aproximavam alguns guerreiros que vinham em seu auxílio quando sentiram a água agitar-se violentamente e ouviram atrás de si um barulho semelhante a um longo e forte trovão.

Ao voltarem-se na direcção de onde vinha o ruído, viram uma junta de bois unida por uma grade canga de ouro, emergir do leito do rio. Os animais pareciam emergir da enorme laje de granito que revestia o leito, visto a altura da água não ser suficiente para os cobrir.

Todos os mouros ficaram parados a olhar, enquanto os dois bois correram descontroladamente para leste, na direcção contrária à que tinham fugido os basiliscos, soltando faíscas ao bater com os cascos nas rochas.

- O que era aquilo? – perguntou Diogo Mendo.

- Não sei, mas quero descobrir – respondeu al-Zaide, tirando o elmo e o turbante da cabeça, para secar o cabelo molhado.

- Não me parece prudente perseguir dois animais que puseram em fuga um basilisco – sugeriu al-Farah.

- Assustaram-se mutuamente – disse al-Zaide. – Reparai como os bois fogem na direcção oposta à dos basiliscos.

- É verdade que correm noutra direcção, mas nada nos garante que fujam com medo – disse Diogo Mendo.

- Ficai aqui se o preferires, rumi – respondeu bruscamente al-Zaide. – Eu quero descobrir que bois são aqueles – e dirigiu-se a um dos seus soldados, pedindo-lhe que fosse buscar um cavalo, visto o seu ter partido uma pata.

- Al-Farah tem razão quando diz que pode ser perigoso perseguir uma junta de bois que afugentou um basilisco – disse Mugawir. Era um mouro alto, musculado, de pele castanha e barba espessa. O seu corpo parecia ter a resistência de uma montanha. Vestia umas calças pretas, uma túnica roxa sem mangas e não usava couraça nem elmo, como se não precisasse de protecção.

- Também acredito que os bois não fugiram com medo do basilisco – continuou Mugawir – o que quer dizer que podem representar uma ameaça mais poderosa que os répteis. Por isso é importante descobrirmos o que são. Devemos ser prudentes, mas segui-los.

Al-Farah e Diogo Mendo concordaram e, em conjunto, decidiram que o exército devia partir para ocidente em busca de outros basiliscos que ainda não tivessem regressado aos seus covis e continuassem a ameaçar os povoados da região, enquanto o alcaide de Sharish, o seu amigo cristão, al-Zaide e Mugawir iriam em perseguição dos bois.

 

Os Mouros das Terras Encantadas

 

Os quatro faziam os cavalos avançar tão depressa quanto o caminho, irregular e cheio de pedras soltas o permitia. Seguiam o velho trilho que acompanhava o rio e fora construído por povos que habitaram aquela região muito tempo atrás. Povos que foram dizimados pelos exércitos dos Encobertos ou forçados a procurar regiões menos inóspitas e desprotegidas.

Viam, não muito longe, a junta de bois percorrer o estreito leito do rio, agora a uma velocidade mais lenta do que aquela com que tinham iniciado a corrida.

- A que impulso obedecerão estes animais para correrem com tanta determinação? – disse Diogo Mendo.

- Isso descobriremos quando os alcançarmos – respondeu al-Zaide. – Mas se fossem tão perigosos quanto nos queríeis fazer acreditar já teriam voltado para trás para nos atacar.

- É ainda cedo para termos essa certeza – disse al-Farah.

- As ideias do vosso amigo rumi confundem-vos o espírito e inebriam-vos a coragem, al-Farah – continuou o filho do emir de Xelb.

Mugawir, que seguia na frente do grupo, fez o cavalo parar bruscamente obrigando os outros a fazerem o mesmo e, virando-se para trás, gritou para al-Zaide:

- Nem a vossa coragem nem a vossa imprudência vos dão o direito de chamar cobarde a Balen al-Farah!

Os dois homens olharam-se num silêncio enraivecido. E foi a voz de Diogo Mendo que os fez abandonar aquele impasse.

- Olhai! – exclamou ele, apontando para oriente, na direcção dos bois que se tinham erguido num grande salto, para depois mergulharem no rio, fazendo o chão tremer violentamente e causando um som ainda mais estrondoso do que o que haviam provocado ao aparecer.

Os quatro homens apressaram-se, mas quando chegaram ao local só encontraram uma grande fresta aberta no leito do rio e a água enlameada pela terra que os bois tinham revolvido.

- Já não os podemos seguir – disse Mugawir. – Acabou-se a perseguição.

Al-Zaide não disse nada, mas virou-se para Diogo Mendo olhando-o com uma expressão que parecia querer dizer que a vontade deste se cumprira, agora que não tinham como alcançar a junta de bois.

- Que animais serão estes, capazes de mergulhar na rocha mais sólida como se de água se tratasse e abrir caminho para o interior da terra? – perguntou al-Farah, começando a tirar a couraça que o sol tórrido aquecia ao ponto de tornar insuportável.

- Não sejais tão precipitado a libertar-vos da couraça e do elmo, Balen al-Farah – disse uma voz frágil e cansada.

Os mouros olharam não direcção de onde vinha a voz e viram, alguns metros à frente, sentada sobre um monte de pedras que se espalhava entre as duas margens, atravessando o rio, uma mulher quase transparente, fluida como uma nuvem pouco densa.

Os quatro aproximaram-se da mulher. Cada um deles já tinha vivido nas Terras Encantadas tempo suficiente para ter visto ou ouvido contar histórias de mouros que se tinham dissipado.

- Senhora, estais…

- Sim – assentiu a mulher, interrompendo Diogo Mendo – estou a dissipar-me – falava devagar como se reunisse as últimas forças que lhe restavam para se forçar a falar. – Fui encantada nesta velha ponte, alguns séculos atrás – e apontou para o monte de pedras sobre o qual estava sentada. Há alguns dias os homens das Terras Esquecidas decidiram que a ponte já não era necessária e destruíram-na para usar noutra construção a pedra de que era feita. Não o consegui impedir e, como acontece a todos os que não nascemos nas Terras Encantadas e cá entrámos por força de um encantamento, ao ser destruído o local onde fui encantada, o meu corpo dissipa-se e a minha existência termina.

- Que podemos fazer por vós, senhora? – perguntou al-Farah.

- Já nada pode ser feito por mim – respondeu a moura, com um sorriso triste. – Mas se as histórias que se contam acerca da nobreza e coragem do alcaide de Sharish correspondem à verdade, como eu acredito, vós e os vossos companheiros podereis ainda fazer muito por Zahara e por todos os seus súbditos.

- Explicai-vos, senhora – pediu al-Zaide, impaciente.

- Tendes razão em apressar-me. O tempo que me resta é pouco, como é pouco o tempo que vos resta a vós para impedir a catástrofe que se avizinha – o rosto tranquilo da mulher contraiu-se, fazendo um derradeiro esforço para contar a história que explicaria o que estava a acontecer. – Na mesma época em que eu fui encantada, Amin e Asim fugiam com o seu velho pai, depois do castelo onde viviam, nas Terras Esquecidas, ter sido tomado pelos rum. O Inverno tinha sido rigoroso e era muita a água que corria por este rio, impedindo os três de o atravessar. Vendo os rum que os perseguiam ficarem cada vez mais perto e sabendo que eram demasiados para os poderem enfrentar, o velho encantou os filhos nestas águas para os salvar da servidão ou da morte, destino ao qual ele próprio não fugiu. Amin e Asim tornaram-se dois dos mais leais servidores da Senhora das Águas. Respondiam prontamente sempre que Zahara os convocava e acorriam em auxílio dos seus vizinhos sempre que uma ameaça os rondava. Mas os dois irmãos nunca abandonaram a ideia de ver o seu encantamento quebrado e de regressar às Terras Esquecidas. Um dia apareceram, nas Terras Esquecidas, a uma mulher que passava perto do local onde tinham sido encantados e, explicando-lhes quem eram, pediram-lhe que os desencantasse. Para isso a mulher teria de regressar àquele local à meia-noite, hora em que os dois lhe apareceriam sob a forma de bois, e deveria tocar-lhes na testa sem mostrar qualquer receio. Em troca a mulher receberia o tesouro que eles guardavam no palácio onde viviam, no fundo do rio. A mulher prometeu que o faria e, à hora combinada, regressou àquele local. Mas quando viu Amin e Asim surgirem e correrem para ela na forma de dois bois enormes, fugiu assustada, dobrando-lhes o encantamento e encerrando-os nas entranhas da terra, presos por uma enorme canga na qual se fundira todo o seu tesouro.

 

Os Mouros das Terras EncantadasOs Mouros das Terras Encantadas

 

A moura fez uma pausa para retomar as forças enquanto os quatro homens a ouviam, em silêncio. E nem al-Zaide na sua habitual arrogância e impaciência se atreveu a interromper a narrativa que, todos o pressentiam, revelaria algo muito grave.

- Amin e Asim ficaram, por acção do duplo encantamento, entregues às forças das trevas e fora da influência da Senhora das Águas. Um dia, enquanto todos nós andávamos ocupados a combater os Monges da Ordem Negra, na terrível guerra que nos moveram, Abu Sakan procurou os dois irmãos e propôs-lhes um acordo. Lançaria um feitiço sobre eles que lhes permitiria, no dia em que um basilisco entrasse nas águas deste rio, e por acção das forças malignas que habitam os corpos dessas criaturas, voltar de novo à superfície. Depois teriam de chegar à nascente do rio, antes do Sol se pôr, e enterrar no solo a canga que os prende. A partir desse momento, a canga anularia as forças benignas de todos os mouros das águas, tornando-os escravos de Amin, Asim e, consequentemente, de Abu Sakan. É por isso que vos peço, senhores, que não os deixem chegar à nascente.

Os quatro homens levantaram-se determinados a cumprir o pedido da moura.

- Esperai – exclamou ela. – É importante que saibais que só há duas formas de o impedir. Podereis fazê-lo, quebrando o duplo encantamento, se um de vós colocar cada uma das suas mãos sobre a testa de cada um dos bois, o que representará certamente a morte de quem o tentar, dada a violência e o ódio que habitam agora o coração dos dois irmãos. A outra forma é matando-os, o que constitui uma tarefa igualmente arriscada, para além de constituir uma injustiça, se pensarmos na nobreza que caracterizava Amin e Asim antes de verem o seu encantamento dobrado. Mas, face à ameaça que paira sobre as Terras Encantadas teremos de aceitar essa injustiça.

- Enquanto um de nós estiver vivo, senhora, o Reino das Águas não cairá nas mãos de Abu Sakan ou dos Encobertos – disse al-Farah, ajustando as correias que lhe fixavam a couraça.

- Zahara já está a par do que aconteceu, mas nem os velozes caminhos dos mouros das águas lhe permitirão cá chegar a tempo de evitar o pior – disse a mulher, com uma voz cada vez mais frágil.

- E vós, senhora, que vos vai acontecer? – perguntou Diogo Mendo, apercebendo-se que o corpo da moura estava cada vez mais transparente, mais etéreo.

- Sabemos o que vai acontecer-me e não há como o impedir. Tratai, senhores, de impedir o que ainda pode ser evitado – e fechou os olhos para recuperar do esforço a que aquela conversa a submetera.

 

***

 

             Cavalgavam sem tempo para observar a beleza do vale. Passava-lhes despercebido o rendilhado tecido por manchas de flores de cores vivas, ignoravam o verde forte das encostas da margem esquerda e a imponente muralha de montanhas rochosas e acinzentadas da margem direita.

            Já não pensavam em seguir os bois, mas apenas em chegar à nascente antes deles.

            Ao atingir um pequeno planalto, o curso do rio virava para norte, cruzando um pequeno prado, e os quatro guerreiros seguiram-no.

            - Conseguiremos quebrar o encantamento sem matar os dois irmãos? – perguntou Diogo Mendo, o guerreiro de olhos tristes que, apesar dos muitos anos já decorridos, não esquecia a dor causada pela morte de Nadima, a moura que amara e fora assassinada pelos Monges da Ordem Negra. Desde esse dia, Diogo Mendo pusera de lado a cota de malha e o elmo, enfrentando cada combate apenas com a espada e sem qualquer protecção, como se procurasse a morte que viesse pôr fim à saudade.

            - O que devemos perguntar, meu amigo, é se quando chegar o momento conseguiremos matar os dois irmãos antes de eles nos matarem a nós – respondeu al-Farah.

            - Não sejais tão pessimista – disse al-Zaide. – Lembrai-vos que contamos com a força de Mugawir.

            Este manteve-se pensativo por uns instantes e depois disse:

            - Levai-me às portas de um castelo e eu arrombo-as, dai-me os pilares de uma ponte e eu derrubo-os, entregai-me um urso e eu estrangulo-o com uma só mão, mas estes dois animais, pressinto que estão para lá das minhas forças.

            Mugawir herdara do pai, o lendário guerreiro Amenhamet, a força sobre-humana que este recebera, como a maior parte do seu povo, ao ser encantado. Não temia o confronto com nada nem ninguém e estava habituado a destruir todos os obstáculos que lhe barravam o caminho. Mas se conhecia a sua força, conhecia também os seus limites e, pelo que observara daqueles dois animais, receava que estivessem muito para além das suas capacidades.

            Al-Zaide era um excelente estratega e nunca pensava em recuar quando tinha à sua frente os servos dos Encobertos, mas o que lhe sobrava em coragem e determinação faltava-lhe em prudência e humildade.

            - Por muita força que tenham, não serão imunes à minha lança – exclamou o filho do emir de Xelb. O elmo e a cota de malha que usava sobre a túnica branca reflectiam o brilho intenso do Sol, destacando o seu porte altivo e pretensioso. A sua barba aparada com perfeição e as roupas de seda fina que usava conferiam-lhe uma aparência aristocrática mais condizente com os salões dos majestosos palácios de Xelb que com um campo de batalha. Mas quando chegava o momento de enfrentar forças do mal, revelava-se um comandante astuto e um guerreiro temível.

 

Os Mouros das Terras Encantadas

 

            O silêncio voltara a cair entre os quatro enquanto cada um pensava numa estratégia para enfrentar a junta de bois mas, antes que um deles a tivesse concebido, o chão voltou a tremer, os dois animais saltaram do leito do rio envolvidos por um enorme estrondo e correram para o pequeno prado que os quatro guerreiros atravessavam.

            Al-Zaide empunhou a sua lança e forçou o cavalo a galopar na direcção dos bois. Quando estavam ao seu alcance, o mouro apontou a lança ao pescoço de um deles, mas os bois baixaram as cabeças aparando o golpe com a canga de ouro, onde a lança se partiu. Depois ergueram de novo as cabeças, abalroando o cavalo e lançando al-Zaide por terra.

            Mugawir e al-Farah tinham seguido al-Zaide. O primeiro saltou sobre um dos animais, agarrando-lhe os longos chifres e procurando torcer-lhe o pescoço, enquanto o alcaide de Sharish tentou cravar o alfange no dorso do outro animal. Mas os bois sacudiram-se com uma raiva incontrolável, projectando Mugawir para longe e ferindo o cavalo de al-Farah com um dos chifres, o que o fez tombar sobre o cavaleiro.

            Logo a seguir precipitaram-se sobre Diogo Mendo, o único dos quatro que ainda permanecia ileso.

            O guerreiro desmontou e afastou o cavalo. Manteve-se imóvel e, no momento em que os bois chegaram ao pé de si, esticou os braços, tocando com cada uma das mãos nas testas dos animais. Mas esse gesto não impediu que fosse derrubado pelo impacto brutal das feras e pisado pelos pesados cascos que passaram por cima do seu corpo durante a furiosa corrida.

            Al-Farah ergueu-se e correu para o amigo, ao mesmo tempo que Mugawir se dirigiu novamente aos bois com a preocupação de evitar uma segunda investida sobre o guerreiro tombado. Mas pouco depois os bois pararam e ficaram calmos. Quando al-Zaide se aproximou para apoiar Mugawir os corpos dos animais começaram a encolher. O pelo que lhes cobria os corpos foi-se soltando como que soprado por uma brisa intensa, os chifres desfizeram-se numa cinza branca e os corpos começaram a mudar de forma. Os cascos deram gradualmente lugar a pés e mãos, as cabeças moldaram-se até tomarem forma humana. E quando, por fim, Amin e Asim recuperaram totalmente o seu aspecto físico natural, a canga de ouro tombou no chão, libertando-os.

Eram dois mouros de aspecto jovem, vestidos de branco, com túnicas bordadas a prata, como as que usavam a maior parte dos súbditos da Senhora das Águas, e os seus olhos inspiravam uma confiança que nada tinha a ver com as personalidades que haviam encarnado após o seu duplo encantamento.

            Al-Zaide e Mugawir aproximaram-se de al-Farah que examinava o corpo ensanguentado de Diogo Mendo.

- Ele… – Mugawir não terminou a pergunta ao ver o alcaide de Sharish abanar a cabeça, indicando que o amigo estava morto.

- Era um rumi, mas sacrificou-se pelo nosso povo – disse o filho do emir de Xelb, curvando-se, apoiando um joelho no chão, junto ao corpo de Diogo Mendo. – Sei agora que possuía a coragem e a nobreza que nunca lhe reconheci.

Amin e Asim aproximaram-se do grupo e iam falar quando se interromperam ao ver que as manchas de sangue no corpo de Diogo Mendo se dissolviam e os ferimentos saravam. A roupa rasgada recompôs-se e, por fim, o guerreiro começou a mexer-se e recuperou os sentidos.

- Estava previsto que os ferimentos sofridos pela pessoa que nos quebrasse o duplo encantamento, sarariam completamente depois de recuperarmos a forma humana – explicou Asim.

 

***

 

             Amin e Asim agradeceram aos mouros e, sobretudo, a Diogo Mendo terem-nos libertado das trevas que os dominavam e prometeram que em breve se juntariam aos quatro para os acompanhar na perseguição aos basiliscos. Mas, por enquanto, esperariam por Zahara, que não tardaria a chegar, para confirmarem a sua lealdade à Senhora das Águas.

            Al-Farah, Mugawir, al-Zaide e Diogo Mendo voltaram a percorrer as margens do rio, desta vez para oeste e sem a pressa que os empurrara na viagem inicial, admirando as cores que o Sol derramava ao longo do vale, na sua descida para o horizonte.